{O Jardim Secreto} Capitulo 2 - Conhecendo o jardim secreto


Eu gostaria de não ter chorado tanto!’ disse Alice enquanto nadava tentando encontrar uma saída. ‘Eu devo estar sendo punida por isso agora, suponho, afogando-me em minhas próprias lágrimas! Isso sim será uma coisa estranha. Entretanto, tudo está estranho hoje.
– Alice no País das Maravilhas Capitulo 2, a lagoa de lágrimas.


O senhor Park parecia estar cansado, os ombros sutilmente curvados para frente, passava a impressão de que o peso em suas costas era grande demais. Seus movimentos também estavam ficando lentos, além de sua fisionomia estar sempre séria. Os olhos não vagavam por sua volta, estavam sempre focados em um único lugar como se estivesse perdido em algum pensamento.

Aquele pai já não era o mesmo.

Min Seok estava duvidoso quanto ao que via. Por mais que observasse seu pai, nunca imaginou que ele teria segredos. Apesar de ter vivido toda sua vida experienciando as brigas conjugais, não havia adivinhado que haveria muito mais daquilo. Claramente sentia peças faltando em seu quebra cabeça, e pensava que as peças ausentes seriam algo somente entre seus pais.

Entretanto havia mais, e provavelmente envolvia uma terceira pessoa naquela relação. Segundo o seu irmão mais novo, o pai jamais teria traído sua mãe, e mesmo assim nunca a amou. Então onde aquele terceiro sujeito iria se encaixar naquela história? E o que mais lhe chamava a atenção, o que tal sujeito teria feito para ganhar a feição e carinho daquele velho pai a ponto de que estime uma mera estante cheia de livros?

Eram tantas perguntas que estavam sendo formuladas, e isso que apenas ouvira um pedaço do diário que seu pai contou á tarde.

Soltando um suspiro o homem voltou a olhar a janela encontrando seu genro. Sehun era um rapaz calmo e silencioso, sempre observava o lado externo das coisas e sem se impor á elas. Deixava com que tudo em sua volta ocorresse naturalmente. Ele teria vivido ali junto com Luhan e seu pai, então deveria saber de alguma coisa. Lembrando-se que o irmão havia dito sobre o marido querer publicar uma história do pai.

Indo em sua direção, aproximou-se do rapaz que desviou sua atenção da janela para o genro. Min Seok se encostou na parede ao seu lado e encarou a janela pensando em alguma forma de iniciar aquela conversa.

- Me diga Sehun, por que esse ano estamos todos aqui para ouvir uma história?

O escritor soltou um suspiro pesado, voltando á olhar para o rapaz mais velho. Ficou pensativo e então encarou o marido que brincava com os filhos na cozinha, junto com o avô.

- O pai de vocês vivenciou algo antes de se casar com sua mãe – Sehun ajeitava o par de óculos no rosto, antes de encarar o genro que parecia interessado – Vivenciou algo tão doloroso que teve de carregar sozinho.

- E isso explicaria o fato de nossa mãe e ele brigarem tanto?

Sehun ficara pensativo. Recordou-se de quatro anos atrás quando morava ainda com o senhor Park, e ele lhe contava a história que vivenciou em sua juventude. Evitando de dar muitos detalhes, o rapaz apenas sorria gentilmente.

- Sabe que seu pai nunca amou a esposa – Min Seok assentia sem estar surpreso – Mas acredito que por você ter nascido, foi o que fez com que o Senhor Park casasse com sua mãe.

Luhan chamava por Sehun quando via os filhos começarem a brigar. O rapaz apenas afagou o ombro do genro e se direcionou para o esposo. Min Seok ficou a encara a janela de forma pensativa. Já teria pensado que preferia não ter nascido para assistir aquelas brigas de seus pais, mas nunca imaginou que eles se aguentavam apenas por sua causa.

O rapaz olhou para o pai que abraçava um dos netos que chorava depois de receber a bronca de Sehun. Ele acariciava as costas do neto enquanto sussurrava algo, tal carinho que já o vira fazer uma vez ou outra. Talvez Luhan tivesse razão quanto á uma coisa, os dois irmãos mais velhos teriam agido com rispidez demais quanto ao pai.

Lembrava-se de suas noites com medo de chuva e trovão, o pequeno Min Seok se levantava da cama e ia para a cozinha atrás de algo pra beber, e acabava por encontrar seu pai ali esquentando leite. No final acabava por servir duas xicaras e esperava o filho mais velho adormecesse para que o carregasse até a cama e lhe cobrir.

Senhor Park não era tão ríspido quanto imaginava que era. Vendo que Luhan arrastava o pai para a sala e o ajeitava em sua poltrona, o rapaz mais velho percebia alguma coisa além de um velho senhor. Teria seu pai adoecido? Erguendo o olhar para cozinha, percebeu que Jong In também observava o pai.

No final de contas, Luhan chamou á todos para se sentarem na sala e aproveitarem para se esquentarem com o calor da lareira que fora acendida por Min Seok. Não demorou para que o diário surgisse e que Luhan se debruçasse no colo do pai com um rosto pedinte.

- Continue, dessa vez Sehun vai anotar tuuudo.

- Por que eu preciso anotar? – O rapaz citado segurava os dois filhos no colo que comiam um doce dado pelo avô. – É só pegar o diário.

- Aish Sehun, segue o ritmo poxa.

Senhor Park ria abafado e começava a mexer na coberta. As mãos trêmulas lhe faziam suspirar, preferiu as ignorar e voltar sua atenção para o que o filho pedia. Estavam em família ali, todos reunidos esperando por uma história. Não tendo escolha, teve de recorrer ás suas lembranças.

- Naquele dia que eu acabei dormindo no banco que havia naquele jardim, e quando eu acordei...

Bulgwang-dong, 14 de fevereiro de 1965
Quando resolvera abrir os olhos, despertando do sono curto que tivera, Chanyeol se lembrou que tinha matado aula e ainda se encontrava dentro da escola. Á qualquer momento poderia ser pego pelo inspetor e ser levado para sala da diretoria. Mas estava tão relaxado deitado naquele banco, ouvindo o som da água caindo da fonte misturada com uma voz doce...

Levantando-se subitamente, Chanyeol olhou em direção de onde aquela voz vinha, encontrando um rapaz agachado de costas para si enquanto mexia em uma planta. Cerrando o cenho agarrou a mochila se preparando para alguma fuga. Entretanto a percepção do rapaz fora tão ágil quanto se esperava, percebendo que havia um movimento atrás de si, tratou de se virar para ver o que era, encontrando aquele sujeito tatuado lhe encarando surpreso.

- Ah... acordou. – Percebendo que o mesmo estava com a mochila e os olhos vidrados em si sem dizer absolutamente nada, apenas apontou com a espátula para o meio das árvores que havia atrás da fonte – Se quiser sair sem ser visto pelo inspetor, pule aquele muro.

Chanyeol piscava algumas vezes enquanto encara o garoto voltar sua atenção para as plantas. Mas como teria a chance de fugir de uma vez por todas, apenas seguiu a direção indicada encontrando alguns poucos metros um muro escondido. Conseguindo pular e sentar-se no muro, percebeu que dava para rua de trás da escola. Sorrindo sorrateiramente enquanto olhava por cima do ombro, não encontrando mais o garoto, pulou o muro e correu pela calçada em direção de seu dormitório.

Não querendo saber se deveria voltar e evitar que aquele rapaz lhe denunciasse ao inspetor, Chanyeol corria para dentro de uma mata onde encontraria a trilha de terra que levaria para a entrada dos fundos do dormitório. Era ali que os funcionários passavam com suas mercadorias, quando retornavam das compras. Passavam pela trilha para evitarem de serem pegos pelos alunos.  

As árvores cobriam o céu, sendo que os raios de sol entrepassavam as folhas iluminando parte da trilha. O rapaz seguia calmamente, ajeitando a bolsa no ombro. Tão breve se encontrava de frente para a porta de madeira que dava acesso á dispensa do dormitório. Passando por ela se escondeu atrás de algumas estantes quando ouvia algum barulho. Espiava averiguando que não haveria ninguém por perto e seguia para a escadaria que dava acesso á cozinha.

Por se aproximar do horário que findava as aulas, o movimento na cozinha poderia aumentar á qualquer instante. Esticando o pescoço para olhar em volta da cozinha e seguir na ponta dos pés até o corredor principal, o rapaz corria pelas escadarias indo direto para o dormitório de seu amigo Jun Myeon, imaginando que ali iriam se encontrar.

Abrindo a porta do quarto, sabendo que o amigo jamais a tranca, adentrou no cômodo e se sentou na cama. Não havia ninguém ali.

- Não acredito que foram pra cidade sem mim.

Olhando em volta do quarto do amigo, Chanyeol percebia um caixote sobre a mesa de estudos. Tinha a forma de um hexágono e em seu centro uma tela circular escurecida. Soltando um riso abafado, o rapaz se aproximou averiguando que aquele caixote seria o tal jogo que o amigo teria ganhado naquela manhã.

- Parece uma gema – O rapaz ria abafado olhando para a tela. – Melhor eu ir, se mexer vou levar uma bronca.

Pegando sua mochila novamente, Chanyeol se retirava do quarto e caminhava calmamente para o seu respectivo dormitório. Saberia que não seria pego por estar no décimo andar, já que ninguém passa por ali. Ao entrar no quarto, fechou a porta e se jogou na cama soltando um suspiro baixo. No final de contas não adiantou sair da sala de aula, ele continuava no tédio.

Rolando pela cama, o rapaz de cabelos brancos alcançou o caderno amarelo que havia comprado alguns dias atrás. Sem ter muito o que fazer e encarando aquela página em branco, resolvera descrever o seu dia.

Enquanto escrevia, percebeu que estava desabafando sobre o sentimento de tédio e solidão. Quando menos esperou, começou a descrever o jardim e o rapaz que ali estava cuidando das plantas quando acordou.

- Quem era aquele pão?

Balançando a cabeça fechou o caderno e deixou escondido em sua mochila. O relógio que demarcava as quatro da tarde, logo o sino da escola soava afirmando o horário. Os alunos iriam voltar para o dormitório e iniciar suas atividades extracurriculares. Mas para Chanyeol, tudo o que resolvera fazer foi tomar um banho demorado.

Com o passar do tempo o sono se apossava de todos. As crianças já haviam adormecido no colo de seus pais, as esposas pareciam sonolentas. Entretanto os três filhos, o genro Sehun e a neta Sejeong estavam atentos á história que o senhor Park lhes contava. O senhor da casa fez uma pausa e pediu para que os filhos acomodassem suas famílias, não queria que tivessem uma péssima noite de sono apenas para lhe dar atenção.
Enquanto todos se dispersavam, o idoso olhava a janela pensativo. Soltava um suspiro quando imaginava que estava contando aquele segredo para seus filhos. Não teria imaginado que um dia como aquele chegaria, onde todos saberiam o motivo de sua solidão.

Sempre escondeu tais sentimentos de seus filhos, para que eles pudessem crescer sem nenhum outro problema além do que já tinham, e ao viver sozinho sentira um alivio grande em poder chorar, resmungar, quebrar coisas sem dar satisfação á ninguém. Entretanto, Luhan estava disposto a acabar com aquela barreira, queria que todos os filhos fossem capazes de compreender o pai.

Isso não seria algo bom?

Imaginando que os próprios filhos estariam dormindo, senhor Park fizera força em suas pernas para se levantar da poltrona e se apoiar no andador ortopédico. Ao ajeitar a coberta no sofá, percebia que o filho mais velho permanecia na sala, com os braços cruzados lhe fitando.

- O que há Min Seok? – O resmungo do idoso que caminhava lentamente pela sala não assustava ou irritava o rapaz.

- Por que sempre escondeu isso de nós?

Senhor Park parou de caminhar quando ficou de frente para o filho. Fitando de seu rosto percebia que já não existia mais nenhuma criança á sua frente. Como poderia lidar com aquilo? Sempre que olhava para seus filhos, viam crianças que tanto amava. Mas já eram adultos, homens de família que tratavam assuntos com seriedade.

Já havia dado o primeiro passo em admitir sua história, e considerando sua idade e o tempo que lhe resta, não precisaria manter nenhum segredo com um adulto como seu filho. Além do mais, não se importaria se eles iriam acreditar ou não em si, apenas queria desabafar e dizer que sua vida já fora colorida uma vez.

- Porque ainda dói. 

Min Seok se surpreendia em ver o olhar triste do pai. O mesmo voltava a caminhar, em passos lentos, para o seu quarto. O filho mais velho se recordava daquele olhar, toda vez que chovia ou nevava, em tempos frios de forma geral, era a época que parecia ser a mais triste para o pai.

Virando-se depressa o rapaz alcançou o velho senhor e o ajudou a caminhar para seu quarto. Ambos em silêncio. O ajudou a tirar sua roupa para colocar o pijama, ajeitou as meias em seus pés percebendo a gelidez dos mesmos. Percebia que tinha inúmeros frascos de remédios sob sua cômoda, e que o idoso os ajeitava cuidadosamente tomando cada um sem se perder.

Enquanto observava o pai tomar a medicação, o coração de Min Seok se apertava. Vivia a vida com sua mãe, ela se mantinha bela e saudável, rodeado pelo padrasto e amigas, que na opinião do filho eram interesseiras ao seu dinheiro. Enquanto isso, senhor Park vivia em uma cidade abandonada, cuidando de cavalos e plantas, sozinho e doente, sem pedir ajuda á ninguém. Não tinha mais beleza em seu rosto, estava com a pele enrugada e o corpo fraco.

- Que tipo de filho eu sou.

O senhor Park não teria ouvido o sussurro do filho, o mesmo apenas ajudou o pai a se deitar e certificou-se de deveria estar coberto, já que previsão do tempo era de vento gelado e pancadas de chuva pela madrugada. Sem nenhuma palavra, Min Seok se retirou do quarto com os olhos marejados, percebendo que o pai estava indo cada vez mais longe de si.

Encostou-se na parede da sala e cobriu a boca e nariz para abafar o seu choro. As lágrimas que derrubavam em seu rosto pareciam descarregar um fardo de anos.

Jimin que havia saído á procura do marido, o encontrou na sala em prantos. Não demorou para que seus pés a levassem até o marido e o abraçasse docemente, deixando com que ele a apertasse sem que houvesse amanhã. Ela percebia que estavam em frente á porta do quarto do senhor Park, e á julgar pela demora do marido em ir para o quarto, significava que Min Seok teria descoberto alguma coisa para abalá-lo de tal maneira.

Deixou que Min Seok chorasse até que se sentisse melhor, ao passar de alguns minutos finalmente levantava seu rosto molhado. A esposa passava as pontas dos dedos com suavidade e delicadeza limpando as bochechas onde tinham as lágrimas. Sorriu gentilmente depositando um selar demorado em sua testa.

- Vamos dormir, precisa de um descanso.

O dia seguinte amanheceu nublado e com uma chuva fina. Os inquilinos de senhor Park já teriam levantado e faziam uma leve faxina na casa, á pedido de Min Seok. Luhan teria percebido que o irmão mais velho estava diferente, e mesmo assim não lhe fez perguntas sobre. Sabia que entre os dois mais velhos, Min Seok era mais compreensível. Sendo assim, seria necessário que ele levasse tudo de sua maneira.

As mulheres estavam responsáveis pelos alimentos. Lavavam alguns legumes e já preparavam comidas saudáveis, de acordo com a receita do nutricionista que Jimin encontrou. Todos haviam levantado cedo, já que Min Seok queria que o pai fosse bem cuidado, pelo menos daquela vez.

O rapaz havia procurado pelas ultimas receitas dos médicos, ajeitou-as em ordem e lembrou-se dos frascos que havia encontrado na noite anterior na cômoda do pai. Um era para pressão, outro para dor muscular, um outro para dores de cabeça, e assim a lista seguia. O rapaz achava estranho que para cada sintoma, houvesse um remédio e por isso passou as primeiras horas do dia conversando com o médico da família.

Jong In arrumava a televisão para que pegasse um sinal melhor, dizia que seria para seu próprio benefício enquanto ficasse ali, já que estava cansado de ouvir jornal de outras cidades. Enquanto instalava uma pequena máquina, o rapaz ficava ouvindo a conversa do irmão mais velho no celular. Se cansando resolvera sentar no chão, ganhando uma garrafa de água do irmão mais novo.

- O que o Seok ta fazendo? De repente ele ta querendo cuidar de tudo.

Luhan olhava para o irmão mais velho e sorria largo, o seu plano estaria dando certo pelo menos. Voltando-se para o filho do meio apenas deu de ombros.

- Acho que ele percebeu uma coisa.

- Que coisa? Vocês são cheios de segredinhos.

- Não temos segredos Jong In – O rapaz se levantava e ajeitava a roupa – Você é que se recusar a enxergar a realidade.

Luhan voltava para a estante onde tirava a poeira. Sehun era o único que havia se oferecido para manter as crianças ocupadas dentro do quarto. Enquanto as mulheres se divertiam cuidando do almoço, Jong In apenas parou para observar tudo em sua volta. O que poderia estar perdendo? O que recusava a enxergar? O que todos estavam fazendo era para o benefício do senhor Park.

Voltando a encarar a televisão, o moreno soltou um suspiro e voltou a arrumar o aparelho de canais pagos.
Min Seok desligava o telefone e fazia anotações em um bloco de notas. Por mais que fosse presidente de uma agência de entretenimento e tivesse dito que seus empregados poderiam ligar em caso de urgência, acabou por avisar ao seu secretário que até o fim da viagem gostaria de não ser perturbado.

Enquanto raciocinava as palavras do médico, o homem ficava a rabiscar a folha do bloco de notas. Havia ligado para questionar para que serviriam aqueles remédios, e se haveria a possibilidade do pai estar doente. Mas o médico não soube responder, já que não sabia o histórico de senhor Park. O idoso nunca foi de ir à exames, e passou a frequentá-los após se mudar para aquela cidade, e com outro médico que não o conhecia.

Soltando um suspiro cansado o homem se debruçava na mesa e olhava para os papeis. No final das contas optou por ajudar na limpeza da casa, não adiantaria ficar pensando demais sobre hipóteses, quando fosse necessário iria questionar o próprio pai sobre os remédios.

Levando cerca de duas horas, fora o horário que senhor Park saíra do quarto de banho tomado. Teria levantado mais cedo, mas percebeu a movimentação da casa e as vozes dos filhos distribuindo tarefas. Não queria interrompê-los de sua diversão, seja lá o que estivessem fazendo. Sendo assim preferiu ficar na cama debaixo das cobertas, enquanto olhava para o seu diário.

A foto preta e branca o fazia sorrir em nostalgia. Talvez reviver suas memórias não fossem de todo um mal. Quando juntou coragem e força o suficiente para se mover da cama, o idoso seguira direto para o banheiro, onde pode tomar seu banho calmamente. Ao ir para a sala e ver toda sua casa limpa e cheirosa, não conseguira guardar o riso e olhar para os filhos que lhe fitavam ansiosos.

- O que andaram aprontando? – Senhor Park avançava com o andador, o cheiro do almoço já fazia seu estomago se revirar. Estava com fome, e por ter levantado da cama tarde, acabou por perder o café da manhã. – Onde estão os pequeninos?

- Estão brincando com Sehun – Luhan sorria ajudando o pai á se sentar na mesa da cozinha, e serviu uma xicara de café – A casa estava pleno pó, Seokkie achou melhor limparmos para o senhor.

O idoso desferiu o olhar para o filho mais velho, que havia voltado á se debruçar sobre suas folhas. Sorrindo sutilmente, ficou a bebericar de seu café enquanto conversava com as noras.

Assim que o almoço fora servido todos se juntaram á mesa para fazerem o desjejum. Senhor Park ficava olhando a janela, esticava o pescoço e resmungava quando voltava a comer.

- O que foi vovô? Está esperando alguém? – Sejeong sussurrava evitando alardes, mas os olhares perspicazes dos três filhos já haviam percebido que o pai estava estranho.

- Eu ia cuidar de algumas plantas, mas a chuva não deixa.

Todos os quatro olharam para a janela que estava atrás de Min Seok. Mal dava para ver algo no lado de fora, já que o vidro estava embaçado do lado de dentro e molhado no lado de fora. Voltaram a olhar o senhor Park que comia com vontade os legumes feitos pelas noras, adorava o tempero delas e aproveitava disso quando elas o visitavam.

- Não sabia que vovô gostava de plantar.

- Nunca gostei – Ria o idoso, olhando para a neta – Mas aprendi a gostar.

- Por que? – Fora a vez de Sehun, que se mostrava curioso. Somente então o senhor Park havia percebido que todos lhe fitavam e haviam prestado atenção na sua conversa com a neta mais velha.

- Por causa daquele jardim que eu encontrei na escola. – Enquanto limpava os lábios com o guardanapo de papel, se esticava para pegar sopa, que estava na panela próxima de Min Seok. O rapaz segurou o prato do pai e lhe serviu, evitando que o mesmo se curvasse demais e machucasse sua coluna. – Claro que voltei no dia seguinte para ver aquele jardim. Era um lugar bonito e calmo, onde eu poderia fazer o que quiser sem me importar com ninguém.

Ao pegar o prato, o idoso agradeceu voltando a se sentar. Tomando da sopa e intercalando com o suco natural de laranja, senhor Park olhava para todos na mesa, já não se sentindo mais constrangido em contar suas histórias.

- E também estava curioso para saber se aquele moleque iria me dedurar para a direção.

Bulgwang-dong, 15 de fevereiro de 1965
Uma vez mais Chanyeol se pegava mordendo a borda do copo de plástico enquanto olhava para a janela grande do refeitório. Mesmo com seus amigos conversando consigo sobre como teriam passado o dia anterior sem o mais alto, o rapaz tatuado não se mantinha interessado. Ficou com o olhar preso na janela até que um movimento se fez em frente á seu campo de visão.

Com o livro da Alice e a caixinha de suco, o mesmo rapaz de sempre estava se sentando. Espreitando os olhos reconhecera sua feição, era um garoto mais baixo que si os cabelos castanhos ajeitando em uma franja, o mesmo penteado que Jun Myeon. Tinha a pele branca e os lábios finos e avermelhados. Era o mesmo garoto que havia visto no dia anterior naquele jardim.

Deixando o copo descartável sobre a mesa, levantou-se com sua mochila e se dirigiu até aquele garoto. Todos do refeitório seguiam Chanyeol com o olhar, estavam curiosos para saber onde ele iria parar. No final das contas a surpresa fora grande quando ele se sentara de frente á um garoto estranho.

O rapaz desviou o olhar do livro assim que percebeu movimentação na cadeira á sua frente. Arqueando a sobrancelha e terminando de beber o suco, continuou a encarar Chanyeol, assim como o mais alto também o fazia. O refeitório fora sucumbido por murmúrios, Jong Dae e Jun Myeon apenas observavam de longe com surpresa.

- Acho que temos contas á serem acertadas.

O rapaz deixara a caixa do suco vazia sobre a bandeja, pegou do salgado e voltou a ler do livro. Mordia um pedaço enquanto seus olhos passavam entre as linhas do livro. O momento de silêncio se prolongou entre os dois, o rapaz somente fechou o livro quando terminou de ler o capítulo, e perceber que Chanyeol permanecia á sua frente esperando por sua resposta.

- O que quer?

Chanyeol olhava em volta e percebia que estava chamando muita atenção. Estava fora do seu círculo de amizades, e como todos queriam estar ao seu lado, talvez tivesse aberto uma brecha para que ficassem lhe observando, esperando uma chance para também se aproximarem. Inclinando-se sobre a mesa, esperou que o rapaz á sua frente fizesse o mesmo, assim que os rostos estivessem próximos o suficiente, fora que o maior começou a sussurrar.

- Era você que estava ontem naquele jardim, não era?

O rapaz ficou a observar a fisionomia de Chanyeol. Soltando um suspiro recordou-se dele dormindo no banco do jardim.

- Ah, o pão de ontem.

- P-Pão? – O sorriso sorrateiro de Chanyeol aumentara com a gíria, mas a fisionomia do rapaz á sua frente se mantinha séria. – Enfim, contou á alguém sobre ontem?

- Sobre você ter matado as últimas aulas?

O rosto de Chanyeol exibia surpresa. O rapaz acabou por se afastar e cruzar os braços, o garoto não parecia ser alguém que o seguiria, já que não demonstrou nenhuma euforia em falar consigo, ou de tentar alguma coisa enquanto o rapaz estava dormindo no banco no dia anterior.

- Como sabe sobre isso.

- Sou da sua sala – O garoto respondia guardando o livro na mochila – E não eu não contei á ninguém, isso não é um problema meu. Se era isso... com licença.

O rapaz não dera tempo para que Chanyeol lhe respondesse. Ele apenas se levantou e se retirou do refeitório tendo vários pares de olhos lhe seguindo. O rapaz alto se virou para observar o garoto sair, soltou uma risada abafada antes de pegar sua mochila e seguir para a sala de aula.

Em seu caminho ficava se perguntando quem eram seus colegas de classe, nunca teria visto ele entre os alunos. Por mais que quisesse se lembrar, iria saber no momento em que passasse pela porta da sala. E quando o fez, encontrou o garoto na fila que ficava próxima á janela, ele estava em uma das primeiras carteiras.

Deixando a mochila sobre a mesa e se sentando, Chanyeol ficou a encarar o garoto que estava de costas para si.

- Você conhece ele?

O rapaz alto se assustara com o sussurro de Jun Myeon, que soltou um riso baixo enquanto se sentava ao seu lado. Chanyeol fizera uma careta antes e voltar á encarar o rapaz.

- Ele me viu cabulando aula ontem. Quero ter certeza que ele não vai contar á ninguém.

- Posso cuidar disso.

- É meu assunto, deixa comigo.

Com o passar das aulas, Chanyeol intercalava entre copiar a matéria e olhar para o garoto da outra fileira. Percebia que o mesmo se distraía com facilidade, e ficava a observar a janela. O mais alto saberia que nos momentos em que se sentia entediado, como no dia anterior, o lado de fora poderia ser mais divertido.

Mesmo com o horário de almoço, o rapaz alto não deixava de observar o garoto, que apenas lia o seu livro. Suspirava indignado sem saber se iria ter seu nome chamado pela secretária do diretor.

Ao se sentar na mesa desistiu de olhar o garoto e ficou a comer do almoço junto com os amigos, que ainda se vangloriavam de ter perdido as últimas aulas. Queriam repetir tais ações, entretanto Chanyeol negou com a cabeça, já que pretendia fazer outra coisa. Antes que o sinal soasse, Jong Dae e Jun Myeon juntaram suas mochilas e seguia o caminho para escaparem dos muros da escola.

O rapaz alto resolvera regressar á sala de aula, onde se sentou e esperou pelo professor de educação física. Como Chanyeol não se sentia interessado em correr pela quadra e praticar o mesmo esporte que aprendeu no ano anterior, juntou seu material e seguiu em direção do estacionamento dos professores.

Dessa vez não havia pressa em seu caminhar, e muito menos estava sendo seguido por algum inspetor. Apenas andava com as mãos no bolso da calça parando em frente á porta de madeira. Abrindo-a seguiu para pular as pedras e atravessar as folhagens de árvores. Havia parado no caminho, suspirando baixo.

- O que faz aqui?

Virando-se rapidamente, Chanyeol voltou a se encontrar com aquele garoto. Soltando uma risada nervosa, ficou a acariciar sua nuca sem saber o que exatamente deveria responder.

- Queria saber se realmente não vai contar á ninguém sobre ontem.

- Eu disse que não irei – O rapaz seguia para além das árvores á direita de Chanyeol, onde ao meio havia uma pequena construção de madeira que serviria como estufa. O rapaz alto seguiu o garoto e o observou tirar o casaco da escola, para então vestir o avental sujo de terra. – E por causa disso está me devendo um favor.

Chanyeol soltou um riso abafado, no final das contas o garoto iria se aproveitar de um Park. Entretanto ser denunciado ao diretor poderia lhe resultar em problemas em casa. Sendo assim optou por entrar naquele jogo, tomando o cuidado para não ser passado para trás novamente.

- E que tipo de favor?

O garoto terminava de arrumar o avental em seu corpo, pegava um pacote de sementes e mais alguns utensílios, e virou-se para Chanyeol.

- Quando um professor pedir para fazer algum trabalho em dupla, faça comigo.

- Ah quer fazer o trabalho comigo então?

- Poderia ser com qualquer um, desde que eu não fique sozinho de novo.

O garoto sorria e passava por Chanyeol, deixando o rapaz alto perplexo. Estava sentindo-se levemente furioso por conta da sensação de estar sendo usurpado. Seguindo o garoto para próximo da porta de entrada do jardim, Chanyeol cruzava os braços e cerrava o cenho.

- Eu sinto muito, mas acho que não sabe com quem está falando.

O garoto começava a tirar da grama com a espátula, fazia um pequeno buraco enquanto enterrava uma semente.

- O grande herdeiro da PCY Entertainment – Respondia o garoto que cobria a semente com um punhado de terra – Mas me parece que você olha para o próprio umbigo.

O rapaz mais alto soltava outra risada abafada, se agachou e ficou a encarar o garoto.

- Escute aqui, eu não olho para o meu próprio umbigo.

- Se não olhasse não estaria conversando comigo – O garoto direcionou sua atenção para Chanyeol, e sorria tristemente – Você não é a única pessoa que os alunos fofocam.

O garoto se afastava de Chanyeol dando continuidade ao seu trabalho. O rapaz alto permaneceu em silêncio tentando se lembrar de alguma coisa que pudesse circular entre os alunos. Mas não conseguia discernir.

No final das contas acabou por se levantar e passar o restante do tempo, dormindo no banco do jardim.

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Olhando para trás, para esta estrada, minhas lágrimas não param de cair
Esconderei tudo isso em meu coração
Promise- Exo

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