{Zargos} Exôrdio


Solardus era conhecido como uma época em que o sol era a estrela mais brilhante, sem dar seu lugar ao luar. Mas naquele dia, tudo parecia diferente. A bola de fogo não estava brilhando tão intensamente como era esperado, algo a cobria formando o primeiro eclipse solar de Mazhar. Aquela sombra foi o suficiente para alertar aos povos de cada canto do mundo, que o perigo se aproximava. Não seria apenas a sombra no céu, mas também o vento frio que soprava balançando as árvores, fazendo os galhos se agitarem fervorosamente. Um homem de cabelos castanhos e um corpo forte, esticava a mão observando com curiosidade o céu. Mesmo estando aquela escuridão assustadora, podia observar algo cair por entre as nuvens. Esticando os dedos, esperando que aquele ponto branco pousasse na sua palma, e então arrepiou-se com a gelidez.


Era hora.

Virando-se, o rei D’Angelo caminhava em passos curtos e apressados, mesmo com os braços flexionado em suas costas, que era de seu costume fazer quando estava pensando em algo, os seus olhos passavam em sua volta, atendo á qualquer sinal de um ataque. Cruzou o corredor iluminado por velas, parou diante da imensa porta de madeira e soltou um suspiro antes de movê-la. Mesmo com os feitiços das fadas para criar uma luz artificial, o rei tinha dificuldade em enxergar.  Ouvira um barulho distante, manteve-se parado deixando a mão direita sobre a espada embainhada em seu cinto, logo conseguia notar a presença de um dos seus guardas, que se aproximava ofegante.

- O exército inimigo já se aproximou da fronteira senhor.

O rei abria um singelo sorriso, acenou ao rapaz e logo desceu alguns degraus com cuidado. Saíra do castelo, indo ao pátio central onde havia pedido que o exército fosse reunido. As tropas eram divididas em fileiras, focaram-se na figura do seu soberano que se mantinha ao pé da escadaria, mantendo os seus olhos claros focados em cada soldado á sua frente. Tinha de dar uma ordem ou perderia a oportunidade de cumprir com a promessa com o seu povo.

- Abram o portal! Proteger nossos muros é o nosso objetivo. – Os murmúrios entre alguns soldados fez o rei perceber que aquela era a medida mais temida para ser tomada em tal momento. Erguendo o queixo, e a mão prendera novamente a atenção de seus súditos - Que as fadas nos protejam!

Com os gritos eufóricos os soldados marcharam em direção externa do castelo. O rei virou-se encontrando uma mulher de vestes reais na cor azul branco e dourado e sob os cabelos brancos e longos, a coroa real. Era sua esposa que segurava a pequena criança em seus braços. Aproximando-se delas, esboçou o seu melhor sorriso como se quisesse despreocupar a rainha. Selando seu rosto e afagando os cabelos da princesa, o soberano seguia os seus soldados com a mesma determinação.

As fadas seguiam o rei, iluminando seu caminho e protegendo o portal que dava acesso á Mazhar, que deixava sua proteção esvaindo. A rainha apenas observou o céu negro, e assustou-se quando um raio emergiu entre as nuvens. Era tão brilhante, e o som de seu estalo fora ensurdecer. Cobrindo a cabeça da criança, a fada observou com lágrimas nos olhos, aquele raio petrificado.

- Pobre criança, o seu destino é cruel para um demônio. – Seu olhar pairou sobre a criança em seus braços, porém o som de uma grande explosão próximo aos portões do castelo, fez a rainha recuar alguns passos – Tenho que te proteger dele.

O rápido olhar para sua confidente, que assentira e fechara as portas de madeiras para então caminhar pelo castelo em passos apressados. Alguns barulhos podiam ser ouvidos, pareciam explosões longínquas na medida em que avançavam pelo piso espelhado. O quarto escondido, próximos alguns tuneis que tinham sua entrada abaixo da escadaria principal, foi o local escolhido pela rainha.

O quarto não era belo como o restante do castelo, as paredes de pedras escuras tinham prendidas algumas velas que iluminavam o local. Ao centro uma cama simples com cobertas finas e esfarrapadas estavam sobre o colchão velho. Não havia janelas, não havia como escutar o som do lado de fora.  Sentando-se na cama, deitou a garota de cabelos platinados a ajeitando entre os travesseiros e cobertas. Os tremores que sentia no chão era sinal de que aquele lugar estava entrando em ruínas com aquela batalha. A fada conselheira aproximou-se de um balde de água onde tocara suavemente em sua superfície. Conseguia observar com exatidão o que acontecia no lado de fora do quarto, assim como ouvir o som das explosões que ficavam cada vez mais perto daquele cômodo, como se apreçassem-na em seus atos. Afastando da cama, a rainha D’Angelo fechou os olhos e movimentou as mãos, criava um feitiço de proteção naquele quarto para esconder a princesa. Assim que as luzes de sua magia se cessaram, virou-se apressadamente para sua confidente. Seus olhos verdes transmitiam a calma das águas do mar.

- Tenho de ir, conto com você para manter esse quarto seguro dos Ferdspatch.
A fada da água estremecera diante dos fatos, sentia que o perigo ficava cada vez mais perto. Seu coração se apertava em ver a rainha ir para a guerra colocando em prova sua vida. Mas havia aquela criança adormecida, aquela criança que precisava de alguém para lhe guiar o caminho e protegê-la de todo o mal.

A rainha sorria, tocando com suavidade o ombro da amiga. A abraçou e em seguida entregou-lhe um frasco de vidro contendo um liquido azul brilhante. Era a poção que ajudaria Mileria á tornar-se jovem outra vez. Era um pedido silencioso da rainha, um pedido que seria acatado com honra e dedicação.

- Sim vossa alteza.

Assim que saiu do quarto, a rainha D’Angelo caminhou rapidamente pelos corredores, segurando-se nas paredes e fechaduras quando uma nova bola de luz atingia feito bomba contra as paredes do castelo.  Retornou para o pátio em frente o castelo, assustou-se com os jardins em fogo, os soldados perdendo de suas vidas em meio á batalha. Mas não seria uma rainha que se escondia em seu castelo, tinha poderes suficientes para batalhar.

Erguendo as mãos ao alto, fechou os olhos para se concentrar. O calor que emergiu em seu corpo refletiu em um intenso campo de força para os aliados, e fraqueza aos inimigos. Retardando o tempo, o passo seguinte seria o canto, agudo e fino ao ponto de desnortear quem parasse para apreciá-lo. O rei, cansado e ferido em meio ao campo de batalha, erguia sua espada e a fincava no chão, fazendo a terra se abrir e engolir as criaturas terrestres. Fadas e feiticeiras usavam sua magia para que a mesma terra se fechasse.

O grito da rainha assim como o seu campo de força, gerou uma intensa luz branca que se expandiu por toda Mazhar. A partir dali, não haveria registros sobre o que prosseguiu.

yz

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