{Tempestade de Neve} ᢅ Capitulo 1 ᢅ


––––•(-• Inverno •-)•––––
A NEVE que caí sobre o chão não derretia tamanha a frieza que se passava pelo ar. Mesmo sendo uma criança com apenas cinco anos de idade, tudo o que passaria naquela noite seria lembrado com tamanha riqueza de detalhes, que parece ser um sonho fantasioso infantil. Dizem que as memórias humanas são mais rememoráveis a partir dos cinco anos, talvez seja isso ou talvez seja por conta do tamanho medo e profundidade que aquilo deixou na criança.

Não se sabe sobre os seus pais, tudo o que se tem informação é que ela vivia em um beco sem saída, entre uma loja de conveniência e um motel barato. Sua cama e travesseiro eram apenas caixas de papelão e blusas de lã grossas e rasgadas que encontrou em algum canto de sua caminhada perdida. Não tinha pais e não tinha um lar. Durante o dia passava pela cidade á procura do que comer, não entendia quando lhe davam alguma moeda e se quer sabia para que usaria aquele pedaço de metal. Ficava contente quando ás seis da tarde um floricultor da rua acima do beco lhe dava pão com carne, e apenas acariciava de seus cabelos para então dizer em um sorriso alguma frase que somente adultos entenderiam sua profundidade.


Á noite se encaixava na caixa de papelão e dava um jeito de se cobrir e dormir.

Mas não naquela noite.

Mesmo que estivesse cansado de caminhar pelas ruas do bairro, demorou-se para que os olhos começassem a pesar e o sono tomar conta. Quando finalmente acreditava que dormiria, abriu os olhos rapidamente ao ouvir passos em direção do beco em que se encontrava. Não se moveu, apenas ficou a olhar as botas cobertas de neve se aproximar de si. Seu coração batia de forma descompassada e se encolhia debaixo da blusa de lã preta, soltou um grito quando teve de seu pescoço segurado pelo homem desconhecido.

Observando de sua fisionomia, encontrou olhos avermelhados e pupilas dilatadas, os lábios abertos mostrando presas caninas esbranquiçadas junto com um rugido feroz que deixava a criança com mais medo ainda. A mão livre fazia de sua garra passar pelo peitoral da criança o machucando intensamente, parando onde o coração batia acelerado por conta do medo, o corpo tentava trabalhar para uma fuga, já sabia que não seria capaz de lutar contra a criatura.

Não conseguia desviar os olhos daquele ser diante de si, e apenas chorava sem saber o que fazer e qual seria o seu futuro dentro de segundos. A garra perfurou de suas costas, o garoto gritava junto ao riso psicopático da criatura que deixava sua marca nas costas do jovem. Pensaria que sua morte estaria próxima e sem ninguém para lhe proteger, amar ou dizer que tudo ficaria bem, apenas o medo estaria estampado sob seus olhos que se quer seriam fechados em sua morte.

Em passos lentos, um segundo homem se aproximava. A criança não pode dizer muito sobre sua vinda, afinal seus olhos estavam completamente vidrados nas presas que passeavam sob sua pele na região do ombro. As lágrimas gélidas rolavam pelo rosto quente, as bochechas avermelhadas destacam ainda mais o seu terror e sua voz aguda ao gritar por ajuda. Uma terceira mão com garras afiadas surgira atravessando o peitoral do atacante. O coração que a terceira mão segurava fez com que a criatura soltasse bruscamente da criança e seu corpo virasse pó. O jovem garoto olhava tudo de forma atônita e medrosa, ficando com mais medo ao notar que o ser que estava á sua frente, tinha apenas um coração em sua mão e o esmagara com tamanha facilidade, o transformando em cinzas.

Ele parecia ser um homem adulto comum, os olhos frios se voltaram para a criança que ainda chorava abraçando seus joelhos sem saber para onde ir e o que fazer. Ao perceber o homem se aproximar de si, a criança fechou os olhos e se encolheu mais contra a parede, até que os sons dos passos parassem e apenas um som suave fosse escutado.

- Pode abrir os olhos.

Cedendo á curiosidade, a criança abriu os olhos e percebeu o homem á sua frente lhe encarando sem nenhum tipo de emoção. Ele apenas esticou sua mão, aparentemente limpa e sem nenhum sinal do coração que havia segurado antes. A criança ficou a olhar sem entender, e passou a observar os olhos do homem á sua frente. Pareciam orbes negras em tremenda profundidade, que se quer seu reflexo poderia ser possível de se ver. Mesmo assim se encantou com o que via, e timidamente deixou com que seus pequenos dígitos tocassem os dedos do homem á sua frente.

A mão dele estava fria, e pareceu formigar com o contato da pequena mão da criança. Segurando firmemente ele se levantou, fazendo com o que o menor fizesse o mesmo e de mão dadas, ele o levou consigo.

Não disse seu nome de imediato, e tudo o que foi visto pelos vizinhos foi de que um homem levou a criança embora sem nunca mais ouvirem falar dela. Policiais foram chamados, cartazes espalhados, orfanatos foram comunicados sobre os traços da criança e então o caso foi dado como arquivado,e esquecido pela população.

Aquele ocorrido passou a ser uma lenda para aquele bairro, que desde então deixou de ser frequentado por outros moradores da cidade. Sempre havia relatos de alguma morte, um homem vestido de preto e que se esgueirava pelos becos atrás de crianças sozinhas. Mas isso era apenas uma lenda, a verdade era apenas aquele ocorrido.

A criança fora levada para a cidade de Gilbey, não era uma cidade muito grande e mesmo assim o número de mortes e assaltos eram gritantes. A casa em que passaria a morar se chama Hastings e pertencia ao homem misterioso. Ao chegar na casa fora apresentado á um outro garoto, alguns anos mais velho, e que aparentava felicidade em seus olhos brilhantes. Depois da pequena apresentação o homem salvador desaparecera sem dizer seu nome ou alguma outra coisa á seu respeito.

A partir dali o garoto de cinco de idade ganhara um nome, Kim Min Seok, e segundo os demais adultos da casa Hastings o nome que ganhara foi escolhido pelo dono da casa, o homem que lhe salvara. Para poder retribuir a noite de neve, Min Seok permitiu-se ser modelado por seus instrutores e veteranos da casa, se tornando um mordomo impecável.

Mesmo que em seu tempo livre gastasse sendo apenas um estudante de história, dentro da casa Hastings adotava um comportamento totalmente diferente. Morava ali com outros empregados que apenas mantinham o sobrado bem limpo e cuidado, e quando necessário servia á algum hóspede que fora á mando de seu grande dominus. Depois de ter chego na casa, não teria o visto, apesar de várias ocasiões aquele homem ter ficado em Hastings, mas Min Seok nunca mais havia o visto.

Suspirando, o rapaz ajeitava os fios castanhos claros e se olhava no espelho. Virou-se diante do espelho, via a intensa cicatriz cobrir suas costas, as marcas que aquele ser diabólico haveria deixado em si e que jamais permitir esquecer algum detalhe daquela noite.

- Deveria fazer uma tatuagem para esconder isso.

Mordendo levemente seu lábio inferior, esticou o braço para alcançar a camiseta social branca a vestindo cuidadosamente para não amassá-la, abotoou a camisa e a ajeitou para então colocar a fina fita abaixo do colarinho, fazendo um pequeno laço nela. Para finalizar vestiu o pequeno colete preto e saíra do banheiro. Olhou para o seu quarto pequeno e certificara de que tudo estaria plenamente arrumado, para então sair do cômodo e seguir pelo corredor de madeira. Ainda estava escuro e o assoalho rangia em cada passo que dava.

Não expressaria suas emoções com tamanha facilidade, precisa ser neutro és um empregado. Descendo as escadas cruzou o corredor chegando na porta dos fundos da cozinha. O movimento já estava intenso mesmo sem o sol nascer. A noticia teria chegado com rapidez no dia anterior, com um bater na porta em meio ao silêncio do bairro. Era apenas um carteiro que entregou a correspondência antes de se mover a boina em sua cabeça e sair caminhando. A carta era endereçada á Min Seok dizia que seu dominus estava para vir com um hospede.

Tinha coisas a fazer, uma sala para arrumar, quartos para serem limpos e arrumados, alimentos que precisavam ser comprados e cozidos. Observando aquela euforia entre os cozinheiros pensava em alguma maneira de obter a ordem.  Pigarreando ergueu ambas as mãos batendo palmas algumas vezes, todos haviam parado o que faziam, para olhar o mordomo.

- Temos uma grande missão para o dia de hoje. Quero que façam uma lista de compras e vão ao mercado antes do almoço. Arrumadeiras, preciso que o quarto do Dominus e o de hóspedes fique impecável.

Não precisariam pedir explicações, todos sabiam que a carta teria chego trazendo novidades. Alguns chefes se juntaram na mesa, enquanto os ajudantes começaram a olhar os armários e geladeiras para dar inicio á lista de compras. As arrumadeiras não tardaram em irem para os quartos e iniciarem a faxina. Deixando as mãos em suas costas, o rapaz suspirava olhando o relógio.

- Tenho que deixar tudo pronto antes de ir pegá-los com o carro no aeroporto.

Dando meia volta, seguia para a sala onde iniciaria a inspeção para os detalhes da casa. Iria checar se tudo estaria em seu devido lugar. Mesmo sentindo sono, e que isso fosse demonstrado em suas olheiras, evitava de bocejar ou de piscar muito demoradamente. Iria se mover para que tivesse energia, e ainda tudo que fosse preparado antes do nascer do sol. Assim poderia tirar algumas horas para ser apenas o Min Seok.

- Min, deixe isso comigo.

Sem sobressaltar com a presença súbita de seu amigo chinês, o mordomo assentira sem discutir. Não seria necessário negar e comprovar que aquilo era sua função, não valeria a pena quando seu amigo era tão teimoso quanto. Sorrindo gentilmente apenas se espreguiçara olhando em volta, averiguando que todos estariam cumprindo os seus deveres.

- Vá descansar e fazer o trabalho da faculdade. Dominus não ficará contente em saber que suas notas decaíram por conta do trabalho.

- Não exagere Luhan. – Min Seok se virou ao amigo, sorrindo zombeteiramente em imaginar que seu mestre sentiria de tal forma consigo. – Isso não chegará aos seus ouvidos.

- Eu farei com que chegue. Então...ciao ciao.

Balançando a cabeça mais uma vez, Min Seok subia as escadas e retornava ao seu quarto onde iria fazer o seu trabalho e descansar até que desse o horário para ir buscar seu dominus. Concordaria que se apresentar como um mordomo de fisionomia cansada era deplorável, precisava mostrar estar disposto a cumprir as ordens que lhe forem fornecidas. Tinha de demonstrar destreza, sem deixar claro o seu ponto fraco. Tinha de ser impecável.

Retirando o colete e a pequena fita, desabotoou os primeiros botões da camisa e se sentou na cadeira de madeira, começando a se concentrar no trabalho. Fora difícil de fazê-lo, uma vez que teria levantado cedo em comparação com o seu horário habitual. Piscar, sentindo suas pálpebras pesarem como se obrigasse a dormir, parecia ser difícil de fazer. Mesmo assim não deixaria suas atividades inacabadas.

Algumas horas que se passaram, logo finalizava o seus deveres acadêmicos e se permitiu deitar na cama para dar um cochilo de alguns minutos apenas. Porém o sono que lhe tomou fez com que dormisse por algumas horas.
A CORRERIA nos corredores cumpriram a função de despertador, Min Seok sentou-se na cama súbitamente ao se dar conta que estava dormindo de forma tão profunda. Não era permitido, tinha coisas a serem feitas. Olhando para o relógio soltou um xingamento em baixo tom, estava uma hora atrasado. Levantando-se rapidamente da cama vestiu seu colete e amarrou novamente a fita sob o colarinho. Abrindo a porta de seu quarto encontrou o sorriso contagiante de Luhan.

-Eu ia te acordar.

- Deveria ter feito isso á uma hora atrás.

- Recebemos o telefonema de que eles não teriam vindo de avião, mas sim de carro. Sendo assim, você foi dispensado de sua tarefa de buscá-los.

Surpreso, Min Seok assentia começando a dar curtos passos pelo corredor. No topo da escadaria pode ver a fila dos empregados serem formados diante da porta da sala. Teria chegado antes do horário combinado. Respirando fundo, sentindo-se aliviado por ter descansado o suficiente e dispensado de sua tarefa, posicionou-se no fim da fila deixando os braços em suas costas. Se observar a porta, apenas escutou o seu ranger quando fora aberta, permitindo que a brisa gentil entrasse na casa.

Todos os empregados se curvavam a cada passo que o dominus dava, Min Seok se curvou assim que encontrou os sapatos sociais pretos bem lustrados passarem diante de si. Não ousou erguer os olhos, sabia que ele estaria acompanhado por algum acompanhante de negócios. Esperava mais um par de sapatos masculinos, porém tudo o que encontrou fora um salto alto vermelho. Arqueando a sobrancelha esperou que os sapatos passassem diante de si, para então ficar com a postura ereta e observar a dona daqueles sapatos.

Uma mulher, não muito alta, por volta dos vinte e quatro anos e traços asiáticos. O vestido vermelho destacava a pele branca e seus olhos amendoados. Era uma mulher bonita, mas não parecia confiável. Desviando o olhar rapidamente por seu dominus, Min Seok percebera que ele teria cortado o cabelo, deixado em um topete e talvez pintado de preto mais uma vez.

O mordo não permitiu-se observar mais do que aquilo, apenas sentiu algo cutucar a sua cintura e já compreendera. Desviando a atenção para cima de seu ombro, encontrou-se com o cozinheiro chefe que apenas assentia, antes de seguir para a cozinha. Puxando o ar em seus pulmões, Min Seok se virou para os dois patronos e curvou-se gentilmente.

- O almoço está servido, dominus.

- Ótimo.

Dominus tinha uma voz rouca e rígida, apenas esticou o braço dando a passagem para a jovem seguir as empregadas em direção da cozinha. Min Seok esperaria que seu mestre seguisse por primeiro, porém o mesmo apenas deixou as mãos no bolso e o fitava friamente. O arrepio que o mordomo sentiu em suas costas foi o suficiente para compreender que levaria alguma bronca. Ficar sozinho com o dominus não era um bom sinal, e sempre resultava em alguma coisa. Não saberia o que, já que a pessoa em questão desaparecia antes de ser questionada.

- Vá para sua aula Min Seok, eu o dispenso.

A surpresa apenas aumentava aquele dia. Min Seok arregalou os olhos diante da possibilidade de ter seu mestre saber á seu respeito. Mesmo assim, seu dominus estava ali, precisava servi-lo para demonstrar a sua gratidão. Era por isso que estava ali, para servi-lo eternamente e demonstrar a sua gratidão por ter a medíocre vida salva por aquele homem sem nome.

- Mas dominus...

Os olhos negros daquele homem, somando á fisionomia séria, não deixava pistas sobre o seu humor. Se ele sorria, era um mistério entre os empregados. Ser dispensado de seu trabalho era preocupante. Porém a forma como seu peito estava estufado em uma pose totalitária, o mordomo apenas engolira em seco esperando o que estava por vir.

- É uma ordem.

Com a frase perdendo-se no ar, o vira seguir para a sala de jantar onde sua convidada o esperaria. Deixou um Min Seok totalmente atordoado e medroso em ser dispensado de seus afazeres, e apenas ter que enfrentar o mundo sem saber por onde começar e como fazer. Passando a mão na testa onde sentia uma leve ardência, resolvera por obedecer aquelas ordens. Voltou ao seu quarto onde tiraria o seu uniforme e colocaria as roupas comuns e seguiria para a faculdade.

Talvez não prestasse a atenção na aula, já que o dia estava estranho demais para si mesmo. Muitas surpresas ocorreram, isso seria sinal de que algo estava por vir.

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