{Olimpo} Prólogo


OS OLHOS de Hera transmitiam a mágoa em ver que mais uma vez fora enganada. Os deuses não tinham nenhuma confiança sobre o casamento, em livros de história eram registrados os filhos de diversas mulheres, fazendo com que a pobre deusa se torne apenas mais uma da longa lista. Apesar de viver junto ao marido e de ter lhe dado dois filhos que querem se tornar imortais, Zeus não parecia contente, achava-os normais demais agiam como os demais semi-deuses, não tinham nada de especial nada que os fizessem merecer seu reinado. Apesar de lhe entregar as chaves dos reinos de Olímpio, Zeus continuaria com seu grande poder sobre os demais, por achá-los inúteis. Não agüentava mais a fadiga de ajudar os humanos, precisava de alguém que o representasse entre os mortais, alguém que fosse digno de ser imortal e mortal ao mesmo tempo.

Hera sempre foi uma deusa calma, apenas dava de ombros, fingindo que aquilo não lhe atingisse, com os casos que seu marido tinha afinal a maioria deles eram assim, as traiam. Tudo o que fazia era abençoar a vida humana, se alegrar em como eles eram tão fiéis a si fazendo homenagens para ganhar uma benção da deusa do casamento. Porém aquele dia parecia ser estranho demais, os ventos que sopravam no Olímpio eram fortes demais, olhando para os mares via-se ondas quebrarem com força. O sol se escondia atrás das nuvens, as árvores balançavam escondendo os animais.

- O que está acontecendo?

Os cabelos cacheados de Hera balançavam em direção do norte, desviando o olhar notou que raios finos se quebravam ali. Não era de se esperar, Zeus se preparava para parecer um humano novamente. Um suspiro a deusa soltou e se sentou em seu banco branco, olhou para baixo acariciando a grandiosa barriga onde esperava uma criança de um mortal.

- Quem sou eu para lhe julgar.

Um par de asas surgiu dentre as nuvens que pairavam sobre a visão de Hera, logo reconheceu quem estava por vir soltando uma risada baixa, como se aquele fosse o melhor esconderijo para o mensageiro dos deuses.

- Hermes, o que lhe traz aqui?

O homem baixo, porém de aparecia cativante, riu sem jeito balançando a mão sobre os cabelos loiros. Aproximando-se da deusa esticou-lhe um pergaminho enrolado e quente, que Hera logo reconheceu seu remetente. Olhou para Hermes questionado silenciosamente o motivo de aquilo ser entregue para si e não para Zeus.

- É chegada a hora Hera, todos do Olímpio devem escolher seus herdeiros. Os demais já tomaram suas posições.

- Pensei que fariam alguma rebelião.

- Creio que a reunião com Poseidon deixou eles certos do que fazerem.

Os olhos de Hera se abaixaram vendo a barriga onde estava seu herdeiro, acariciou-a sentindo uma leve movimentação e sorriu, olhando para Hermes em seguida.

- E quanto á ele? - Hermes olhou para trás e viu as nuvens negras juntos dos raios se dissiparem.

- É o único que falta. Poderia escolher entre os que já tem, mas sabe como é meticuloso.

- Não quero dividir ele novamente, isso já está ficando cansativo e horrível para a nossa imagem.

- No momento nada podemos fazer, guarde sua frustração para outro momento. És a deusa do casamento e da familia, não pode entrar em declínio com aquilo que protege.

Um suspiro fora dado e a deusa assentiu concordando em deixar aquela questão de lado. O que eles precisavam no momento era apenas se concentrar em realizar a profecia. Milênios se passaram desde que os dozes deuses reinavam o Olímpio e protegiam os humanos, agora eles precisavam de sucessores para governar o mundo dos humanos, enquanto os deuses se concentrariam em aumentar seus poderes para a segunda era de governo.

Uma segunda era, como a deusa Hera estava ansiosa para esse momento. Estava decidida a dar o fim á liberdade de seu marido. Precisava se tornar um exemplo para os humanos, ela precisava mostrar que o casamento é algo precioso demais, mas como demonstrar isso enquanto Zeus se passa por humano e fica noites e noites entre os mortais e gera mais filhos? Precisava mudar isso.

- Hades, já fez sua parte. Porém a criança nasceu com poderes demais.

- Hades? - O coração da pobre deusa parecia se apertar em seu peito. Sabia que coisas ruins poderiam acontecer quando se trata do deus do submundo. - Com certeza ele vai querer ter o poder absoluto.

- Creio que os deuses estão preocupados com isso.

Como poderia parar Hades? Não saberia o que ele faria mediante a situação. Teria de pensar em uma forma de parar seu filho, a criança que acaba de nascer. Se é poderosa isso traria uma grande vantagem ao deu do submundo em tomar o mundo dos humanos para si. Transformaria naquilo em puro ódio e destruição, não caberia amor no mundo dos humanos. O amor...

- Tem algo que posso fazer. - Suspirou a deusa olhando para seu companheiro, como que se aquela troca de olhares fosse possível transmitir o que pensava. - Mas isso vai custar a minha dignidade como deusa.

- Não faça isso, Hera imagine o quão bravo Zeus ficará.

- Não tenho escolha. Ganharemos tempo para impedir Hades. - Hera apertava o tecido rosado e olhava para além das nuvens. - Preciso ver Afrodite, entregue uma carta que irei escrever para as feiticeiras do submundo, e não deixe Hades saber disso. E nem ninguém mais.

Longe dali, no mundo dos humanos de forma mais precisa, os raios se foram e um homem de cabelos levemente compridos e dourados caminhava sobre as ruas molhadas da Grécia. Seus olhos em um castanho claro, lembravam de seus raios, a forma como eles procuravam alguém, mostrava sua preocupação. O tempo se esgotava, tinha de procurá-la, cometera o erro de permitir que ela ficasse perto de si. Fora descoberta, a pequena criança corria risco agora. Passos apressados e mãos suadas pareciam não ter fim, entrou em um prédio pequeno e abandonado onde havia a escondido, o grito de dor que a mulher soltara fizera o coração, agora humano, de Zeus bater rapidamente.

- Onde esteve? Chamei-te por toda a noite. - Dizia a jovem mulher entre ofegos, deitada em sua cama, com o rosto fino e branco coberto por suor.

- Me desculpe, tentei vir de todas as formas, mas somente agora consegui. - O homem segurou firme a mão da mulher que gritava tendo outra contração. - Preciso de ti Hera.

Do Olimpio a deusa escutara o chamado, olhou para trás notando não ter sentindo mais da presença de Zeus. A deusa se pôs em pé junto a Hermes, ambos olharam para baixo vendo a cidade ser molhada pela chuva.

- Mais uma criança está por vir. - Suspirava Hermes. - Ajude agora, e ajude mais. Se esta é a sua escolha, então estarei ao seu lado para lhe acobertar.

A deusa assentiu assim esticando as mãos diante de si, uma bola de cristal surgira mostrando a imagem de Zeus ao lado de sua amante, que estava prestes a dar á luz. Respirando fundo se concentrou dando-lhe a calma para Zeus e a força para mulher. No mundo humano a hora chegou, Zeus apertava as mãos da jovem moça, e a mesma soltara um grito alto expulsando a criança de seu corpo. Depois de alguns minutos de contração o choro infantil inundara os ouvidos de Zeus, aquele choro estridente que parecia ser musica aos seus ouvidos. Dessa vez dera certo a criança que lhe herdaria.  Pegou a criança a envolveu em panos e entregou para a mãe.

- Zeus!

A voz de Hera viera em sua mente, a jovem moça novamente gritava apertando os lençóis onde estava deitada, segurando a criança com uma mão, ergueu o vestido fino banhado de sangue, vendo a cabeça de outra criança ser expelida. Não esperava uma segunda criança!

- Force-a Lee, force-a a sair.

- N-Não aguento. - Sussurrava ela sem fôlego.

Hera juntava todos os seus poderes para ajudar a jovem moça de origem asiática, sua energia estava se esgotando. Aquela criança era poderosa demais. Suspirando, posicionou-se em sua cama, tomando a mesma posição em que a mulher humana estava. Segurando firmemente a bola de cristal tomou as dores da mulher e fez força, passando a energia acumulada por Hera para a mulher mortal, que finalmente deu a luz á segunda criança.

- Oh não.

Hera olhou para Hermes com o rosto suado, sentou-se na cama e desviou sua atenção para o mar, as ondas chegavam a alguns metros de altura, os cavalos corriam relinchando alto. Fitando o horizonte perto das cadeias de vulcões via-se a lava subir, porém sabia que não era uma erupção, era apenas a fúria de Hades.

- As crianças. - Sussurrava Hera. - Quantas crianças nasceram até agora Hermes?

- Han não sei, acho que cinco. Mas faltam algumas ainda. - Dizia o deus mensageiro perdido em suas contas. - O seu filho, o de Ares, Atena e o meu ainda não nasceram, não estão prontos.

- O que devo fazer? - Sussurrava a deusa. - Já que são uma família irei proteger.                                                                                                                                
- C-Como?

- Hades vai correr atrás daqueles que já nasceram. Isso tudo está uma loucura.

Hera apenas caminhou pelo seu quarto abrindo uma porta que dava acesso ao local onde guardava seus livros. Pergaminhos eram escritos com as diversas orações criadas por si e por humanos, para a proteção de casamentos, partos e famílias. A bola de cristal mestre, dez vezes maior da que estava usando, brilhara mostrando a imagem das crianças que já haviam nascido. Logo começou a cantar das orações, esticando as mãos para o alto lançando um campo de força que protegeria temporariamente contra os ataques de Hades.

- I-Irei falar com Afrodite. - Hermes deixou o quarto, procurando por algo que pudesse fazer e que fosse de ajuda e passou a correr pelo Olimpio atrás da deusa do amor.

Enquanto isso Zeus admirava os dois filhos que havia chegado ao mundo, sentado ao lado de sua amante, sorriam os dois para as pequenas crianças que apenas dormiam. O vento que soprava por conta da oração de Hera passou pela janela, Zeus olhou para fora e notou a movimentação dos demais deuses.

- O que houve Kim? - Sussurrava a mulher, clamando pelo codinome dado á Zeus. - Acontece algo lá fora?

- Hades nos achou. - Sussurrou. - Hera está te protegendo.

- O que isso quer dizer?

- Preciso te tirar daqui agora.

- Para onde irei?

- Qualquer lugar longe daqui.

Zeus se pôs de pé e arrumou as malas da jovem mulher, assoviando para a janela um belo cavalo branco com par de asas surgiu se aproximando do prédio. O homem colocou a jovem mulher com as duas crianças e selou seus lábios em despedida. Voltando-se ao cavalo, acariciou de sua crina e sorria gentilmente.

- Leve-a para outro país, e fique junto a ela a protegendo. Sabe me procurar caso algo aconteça. - Zeus lhe entregou dois medalhões dourados para a mulher e um pequeno frasco avermelhado. - Dê para o Alado beber, assim que chegarem, ele se tornará humano e protegerá as crianças e á si.

No Olimpio Hera perdera suas forças e acaba por desmaiar, Hermes que corria até o templo de Afrodite, via a deusa apreciar do pequeno bebê que tinha em seus braços. Mais uma criança teria nascido naquele mesmo tempo? Estava correto em dizer que tudo estava uma loucura. Suspirando virou-se para o templo de Hera e sentiu um arrepio. O tempo estava correndo.

- Afrodite, o tempo chegou. - A deusa do amor ergueu os olhos e suspirou mordendo o lábio inferior, colocando a criança em um berço coberto por uma manta vermelha.

- O que precisa?

- Hera pretende fazer algo para proteger todas as crianças.

- Bem que pensei. - Sussurrou ela pensativa. Levantando-se olhou em sua volta como se procurasse por algo. Porém tudo o que queria era apenas pensar, pensar em algo que ajudasse naquele dia. - Precisamos reunir todos os deuses do Olimpio.

- Mas Zeus está na Terra, duas crianças nasceram.

- Duas? - A deusa se virou surpresa para Hermes. Não esperava duas crianças gêmeas. Voltou o olhar para seu próprio filho e sentiu o olhar pesado de Hermes sobre si. - Reúna-os mesmo assim, deixe Zeus de fora, ele não pode saber disso.

- E se descobrir? Estaremos encrencados.

- É para o bem de todos nós.

Hermes apenas concordou, e assim passou por todos os templos dos deuses chamando-os para uma reunião de emergência. Afrodite correra até o templo de Hera e acudiu a deusa desmaiada. Com o pequeno semi-deus deitado ao lado de Hera, ambos dormiam, Afrodite apenas zelava seu sono pensando em o que levaria a pobre Hera a salvar todas aquelas crianças, contra a ambição de Hades e sem que Zeus soubesse. Hera se movia e despertava aos poucos, sentou-se na cama com a ajuda da deusa do amor, e tentava se situar do que haveria ocorrido para perder a consciência.

- Acordastes. - Sussurrava a deusa do amor enquanto pegava sua criança no colo. - Vamos não temos tempo, precisamos no encontrar no monte Olimpo.

- Mas...

- Zeus não pode saber.

Temerosa a deusa Hera acabou por assentir e as duas seguiram para o monte Olimpo onde os demais deuses se encontravam. Alguns pareciam preocupados com suas proles que iram nascer, outros cuidavam dos pequenos ali mesmo como Afrodite.

- Precisamos entregar as crianças para os humanos. - Disse Hera se sentando em seu lugar enquanto bebia água para se recompor. - Deixá-las conosco pode ser arriscado.

- E com esses humanos também. - Dizia Demeter. - Não posso deixá-los lá.

- Hades fará de tudo para tê-los e matá-los para que seu próprio filho se torne o sucessor de Zeus.

- Mas apenas deixá-los lá seria arriscado, devemos fazer algo que possa protegê-los. - Ordenava Dionísio.

- Zeus mandará as crianças para outro país junto da mãe, faremos o mesmo. Eles cresceram junto á humanos, terão hábitos humanos, e quando estiverem prontos, os traremos de volta.

- E como iremos trazê-los?

- Cada um de nós sabe a idade de cada criança, saberemos quando ela estará amadurecida. As guiaremos através de seus sonhos, mas lembre-se nada de intervir em suas vidas. - Dizia Afrodite.

- Para protegê-los faremos um encanto, lacraremos seus poderes, eles irão despertar quando estiverem pronto, mandaremos eles para um treinamento junto com outros de nossos filhos, e assim continuaremos com a profecia.

- O encanto servirá para despistar o cheiro deles, assim Hades nunca irá os encontrar.

- Ta, mas como iremos derrotar Hades? - Dizia Ares segurando firma sua lança. Era perceptível o desespero dos deuses em não conseguirem cumprir a profecia. E estava claro que o principal problema era Hades. - Ele conhece todos os truques que temos, ele estará pronto para o que iremos fazer.

- Ele estará - Sorria Hera. - Mas a criança não.

- O que pretende?

- Essas crianças precisam, mais do que nada, sentir o amor. Amor por sua família, amor por seus vizinhos, amor por seus amigos. O filho de Hades não pode sentir o amor, então o faremos sentir.

Os deuses sorriram com a idéia, destruir Hades nunca foi uma opção, o que eles queriam era manter a ordem do Olímpio. Todos os semi-deuses iriam governar entre os humanos, mas tinham de tomar cuidado com a ambição um do outro, somente assim para manter a harmonia.  Assim os onze deuses consentiram á ideia de Hera e Afrodite e se juntaram e cantaram da melodia que traçaria aquele encanto ás crianças recém-nascidas.

Do topo do monte Olimpo uma forte luz se sobressaía formando uma grande cortina sobre o mundo. Passara por cada pedaço de cada país, onde quer que as crianças fossem, elas não seriam reconhecidas como semi-deusas. Zeus vendo a cortina certificou-se de que Alado havia levado Lee para bem longe, assim retornando a sua forma original e seguir ao seu templo.

Quando chegou, viu os deuses saírem do monte Olimpo e seguirem seus caminhos, Hera foi ao seu encontro e segurou sua mão sorrindo largamente. Franzindo o cenho, o deus dos raios tentava pensar no que haveriam feito em sua ausência, mas o olhar carinhoso da deusa não lhe deu coragem para sentir raiva.

- Ficará tudo bem agora.

- O que vocês fizeram?

- Descanse e recupere sua energia, a partir de agora, temos uma grande responsabilidade.

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